A nova governança da cibersegurança no setor financeiro

Do controle técnico à resiliência institucional: o novo direcionamento do Banco Central

Se a sua organização ainda trata cibersegurança como um assunto de TI, ela já está atrasada — e o Banco Central começou a cobrar isso formalmente. Em nossa atuação com instituições financeiras de diferentes portes, o que observamos com frequência não é ausência de tecnologia: é ausência de governança. Ferramentas existem, processos não. Controles estão documentados, mas nunca foram testados. A segurança é responsabilidade de uma equipe técnica que raramente fala com o conselho.

As Resoluções CMN nº 5.274/2025 e BCB nº 538/2025 materializam essa virada: o regulador deixa de aceitar declarações de conformidade e passa a exigir evidência operacional. Controles técnicos, planos diretores, testes periódicos e prestação de contas formal à alta administração — tudo isso passa a ser auditável e testável. O que antes era interpretado como “boa prática” agora tem prazo, periodicidade e consequência.

De tecnologia para governança: a raiz dos incidentes

O movimento regulatório reflete uma constatação madura: muitos incidentes não decorrem da ausência de tecnologia, mas da fragmentação entre decisão executiva, operação de TI e gestão de riscos.

Quando a segurança permanece encapsulada em áreas técnicas, a resposta tende a ser reativa, episódica e desalinhada ao negócio. O Banco Central, ao elevar o nível de exigência, reforça que segurança deve ser tratada como disciplina de governança — e não como um conjunto de ferramentas isoladas. Na prática, o que vemos com frequência em processos de avaliação de maturidade é que as lacunas mais críticas não estão nas ferramentas — estão na ausência de integração entre segurança, risco e negócio, e na falta de testes que validem se os controles existentes realmente funcionam sob pressão.

Marco regulatório e elevação do padrão mínimo

O fortalecimento do arcabouço regulatório — com destaque para as Resoluções CMN nº 5.274/2025 e BCB nº 538/2025 — estabelece um novo patamar de maturidade para o setor financeiro, incluindo a obrigatoriedade de testes de intrusão (pentest) e maior rigor na gestão de riscos cibernéticos.

Entre os controles exigidos — e que passam a ter caráter obrigatório e auditável — estão:

  • autenticação multifator
  • criptografia
  • testes de invasão (pentest)
  • segmentação de redes
  • gestão de certificados digitais

O efeito combinado dessas medidas é a redução de interpretações flexíveis sobre “boas práticas”, substituindo-as por requisitos objetivos, testáveis e auditáveis.

Conformidade como ciclo contínuo — não como evento

Ao estabelecer periodicidade mínima para avaliações, exigir planos diretores e reforçar testes de continuidade, o regulador deixa claro que conformidade não é um marco pontual, mas um ciclo contínuo de evidência, validação e melhoria.

Isso implica:

  • maior disciplina documental
  • rastreabilidade de controles
  • validação prática (e não apenas declaratória)
  • integração entre áreas

Em outras palavras, controles “de papel” deixam de ser aceitáveis.

Governança além da TI: independência e integração

Um dos pontos mais estratégicos é a separação entre a função de segurança da informação e a estrutura tradicional de TI.

A lógica é objetiva: quem opera a tecnologia não deve definir, sozinho, o nível de risco aceitável nem validar sua própria conformidade.

Organizações maduras estruturam a segurança de forma integrada com:

  • risco
  • compliance
  • jurídico
  • auditoria
  • negócios

sempre com patrocínio direto da alta administração.

Nuvem, terceiros e o risco da cadeia digital

A ampliação do uso de nuvem e serviços terceirizados introduz um vetor crítico de risco: dependência de terceiros e exposição transfronteiriça.

O Banco Central reforça que a terceirização não transfere responsabilidade — exigindo:

  • cláusulas contratuais robustas
  • direito de auditoria
  • evidências de resiliência
  • testes de continuidade
  • mecanismos de saída efetivos

Na prática, a gestão de terceiros precisa evoluir de questionários estáticos para monitoramento contínuo e validação operacional.

IA e integridade de dados: o novo perímetro da segurança

A inclusão de riscos associados à inteligência artificial, como o data poisoning, amplia o escopo da cibersegurança.

O foco deixa de ser apenas:

  • perímetro
  • identidade
  • endpoint

e passa a incluir:

  • integridade de dados
  • governança de modelos
  • validação de decisões automatizadas

Esse movimento evidencia a convergência entre cibersegurança, antifraude e governança de IA em torno de um único objetivo: confiança digital.

O papel do pentest na nova exigência regulatória

Nesse contexto, o pentest deixa de ser uma prática pontual e passa a ocupar papel central na governança de segurança.

Mais do que identificar vulnerabilidades, o pentest:

  • valida controles na prática
  • traduz riscos técnicos em impacto de negócio
  • prioriza investimentos com base em evidência
  • fortalece a confiança com reguladores e stakeholders

Como reforçado pelo mercado, o pentest já é tratado como exigência regulatória e elemento-chave de maturidade digital.

Implicações para executivos: evidência, integração e teste

O direcionamento é inequívoco: maturidade passa a ser medida por evidência operacional.

Isso significa:

  • políticas implementadas e testadas
  • controles monitorados continuamente
  • métricas de risco e remediação
  • integração entre áreas

Ferramentas isoladas deixam de ser suficientes — o foco passa a ser eficácia comprovada.

Conclusão: cibersegurança como pilar de estabilidade institucional

O Banco Central consolida uma visão em que a cibersegurança é componente essencial da estabilidade do sistema financeiro, e não uma função acessória de tecnologia.

Para as organizações, isso redefine prioridades, amplia o papel do conselho e eleva o nível de exigência sobre toda a cadeia de valor.

O desafio não é apenas cumprir a norma — é construir uma capacidade contínua de resistir, responder e se recuperar. A pergunta que todo executivo deve se fazer hoje não é “estamos em conformidade?”, mas “conseguimos provar isso operacionalmente — e o que acontece se formos testados amanhã?”

Quer entender o nível de maturidade da sua organização frente às novas exigências do Banco Central? Entre em contato com a equipe da CLA Brasil para uma avaliação diagnóstica.

Por Paulo Baldin, CISO e Sócio Diretor de Cybersegurança | CLA Brasil

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