Sobre o estudo

De investigações reais a hipóteses testáveis

A CLA Brasil mantém um Núcleo de Investigações Comportamentais dedicado à apuração de assédio, discriminação e outros desvios de conduta. Ao longo dos últimos anos, conduzimos investigações em companhias de capital aberto, empresas familiares em profissionalização, operações industriais e organizações com cadeias complexas de prestadores — realidades distintas em que alguns padrões se repetem.

Os relatos raramente surgem no primeiro episódio: chegam quando alguém já deixou a equipe ou alcançou seu limite. E a conduta investigada frequentemente já era conhecida na área antes de alcançar os canais formais. As cinco hipóteses desta edição nasceram da observação dessa recorrência — não apenas de referências teóricas.

Percepções se convertem facilmente em números, mas sua interpretação exige rigor para que os resultados não sejam conduzidos por expectativas prévias. Por isso as hipóteses foram fixadas antes do campo e o questionário foi desenhado especificamente para testá-las.

"Um canal com poucas denúncias descreve, com a mesma fidelidade, uma empresa onde não há o que denunciar e uma empresa onde ninguém ousa."
Governança, Riscos e Compliance — CLA Brasil
Metodologia

Como a pesquisa foi construída

Desde 26 de maio de 2026, o que a fiscalização examina não é um checklist: é a consistência técnica do processo de identificação dos riscos. O mesmo critério orientou o desenho deste estudo.

01
Hipóteses antes do campo
As cinco hipóteses foram fixadas a partir dos padrões observados em investigações reais, antes de qualquer coleta.
02
Questionário desenhado para testá-las
Cada bloco de perguntas existe para submeter uma hipótese específica a teste — não para ilustrar uma conclusão.
03
Cruzamento entre dimensões
Compliance, liderança, conhecimento das normas, treinamento, confiança no canal e resposta institucional lidos em conjunto.
04
Resultado publicado como veio
Quando os dados não confirmaram uma hipótese, a conclusão foi apresentada com a mesma clareza dos demais achados.
O que a pesquisa entrega
Indicadores de percepção coletiva
Padrões recorrentes com consistência interna
Leitura de risco estrutural
Base comparável para decisões sobre cultura e governança
O que a pesquisa não faz
Relação de causa e efeito entre variáveis isoladas
Classificação de organizações ou setores
Identificação de indivíduos ou situações particulares
Substituição de investigação formal ou análise interna
Limites que também fazem parte dos resultados

A amostra foi formada por conveniência e participação espontânea: os percentuais descrevem o grupo que respondeu, não a população profissional brasileira. Há efeito de autosseleção — quem vivenciou ou presenciou o tema tende a participar mais. Por isso a análise privilegia a convergência entre respostas, a recorrência de padrões e os cruzamentos entre dimensões, em vez da leitura isolada de cada número.

As hipóteses

Cinco afirmações submetidas a teste

Cada hipótese é apresentada por inteiro no e-book: o que buscamos compreender, o que a literatura e a regulação já estabelecem, como o teste foi construído e o que os dados revelaram — inclusive quando não confirmaram a hipótese.

01
Empresas percebidas como mais maduras em compliance apresentam maior conhecimento do Código de Conduta e mais ações preventivas.
O conhecimento da norma varia 27 pontos entre os extremos; a periodicidade dos treinamentos, 48.
02
Treinamentos periódicos estão associados a maior clareza sobre o que caracteriza assédio e sobre como reportá-lo.
Sem treinamento, apenas 7,7% têm clareza plena sobre a conduta — com cadência definida, 60,2%.
03
Onde o assédio é percebido como recorrente, há maior naturalização de práticas abusivas como parte da pressão por resultados.
A concordância foi superior, em todas as afirmações, entre quem já sofreu ou presenciou assédio.
04
Há diferenças geracionais na percepção, na tolerância e no reporte de situações de assédio.
Análise por faixa etária, com as bases e as limitações declaradas quadro a quadro.
05
Monitoramento comportamental e aplicação consistente de medidas disciplinares são percebidos como formas de mitigar a recorrência.
97,3% atribuem efeito preventivo ao monitoramento; 95,5%, às medidas disciplinares.
O que os cruzamentos mostram

Não basta instituir. É preciso alcançar.

Recortes dos gráficos do e-book. A base de respondentes varia por bloco e está indicada em cada quadro.

Maturidade
27 pts
de diferença no conhecimento do Código de Conduta entre os extremos de maturidade percebida em compliance.
Estruturado ou avançado85,9%
Em desenvolvimento72,5%
Inicial ou inexistente58,8%
Base: 279 respondentes
Reconhecer
60,2%
consideram que o conteúdo esclarece plenamente o que configura assédio — onde o treinamento tem periodicidade definida.
Treinamento periódico60,2%
Sem periodicidade clara35,0%
Sem treinamento7,7%
Base: 274 respondentes
Reportar
94%
sabem com clareza como reportar onde há treinamento periódico. Divulgar o canal é simples; formar o reconhecimento da conduta, não.
Treinamento periódico94,0%
Sem periodicidade clara74,2%
Sem treinamento50,8%
Base: 262 respondentes
Naturalização
87,8%
concordam que pessoas deixam a equipe ou a empresa por não suportarem a forma de gestão — a maior concordância da pesquisa.
Saída pela forma de gestão87,8%
Prática justificada por alta performance72,7%
Abuso normalizado pela pressão71,8%
Permanecer exige tolerar69,7%
Base: 238 respondentes
Quem vivenciou
26 pts
separam os dois grupos na afirmação de que permanecer na equipe depende de tolerar comportamentos inadequados.
Sofreu ou presenciou74,6%
Nunca sofreu nem presenciou48,7%
Base: 238 respondentes
Confiança
87,5%
confiariam em reportar quando percebem que a empresa responde adequadamente. Onde a resposta falha, restam 12,9%.
Empresa responde adequadamente87,5%
Resposta parcial42,0%
Não responde adequadamente12,9%
Base: 221 respondentes
A distância entre instituir e alcançar

A norma chega. A rotina, nem sempre.

Oito em cada dez profissionais dizem que a empresa tem política formal sobre conduta e prevenção. Menos de um terço identifica treinamento com periodicidade definida — e a compreensão sobre o que configura assédio depende quase inteiramente dessa cadência.

Dizem que existe política formal de conduta81,4%
Declaram conhecer bem o Código de Conduta74,6%
Afirmam que a empresa realiza treinamentos67,5%
Identificam periodicidade definida nesses treinamentos31,8%
Como lemos os resultados

O que os números dizem quando lidos em conjunto

Nenhum percentual isolado responde à pergunta desta edição. As leituras abaixo são os pontos em que as cinco hipóteses se encontram.

A autoavaliação de maturidade é um indicador razoável

Quem avalia melhor o programa da própria empresa também conhece melhor suas normas e identifica com mais frequência ações estruturadas de capacitação. A percepção coletada junto aos empregados mede o alcance efetivo do programa — e não apenas a percepção que a área de compliance tem de si mesma.

Publicar a norma é acessível. Sustentá-la, não.

O conhecimento do Código de Conduta varia 27 pontos entre os extremos de maturidade; a periodicidade dos treinamentos varia 48. Nas empresas em desenvolvimento, o conhecimento da norma permanece alto (72,5%) enquanto a cadência de treinamento cai para 17,0%: o amadurecimento começa pela formalização e só depois alcança a rotina.

Divulgar o canal é simples; formar o reconhecimento, não

Metade de quem nunca teve capacitação ainda assim sabe como reportar. Mas a compreensão sobre o que configura assédio depende quase inteiramente do treinamento: 7,7% sem capacitação, 60,2% com cadência definida. E mesmo entre quem tem treinamento periódico, 38,6% consideram o conteúdo apenas parcialmente suficiente — regularidade é condição necessária, não suficiente.

A forma de gestão aparece na rotatividade antes de aparecer no canal

87,8% concordam que pessoas deixam a equipe ou a empresa por não suportarem a forma de gestão — a maior concordância da pesquisa, percebida inclusive por quem nunca vivenciou assédio. Quando isso ocorre, o efeito aparece nos indicadores de saída sem que o fator associado seja identificado.

A resposta institucional é o melhor preditor da disposição a reportar

Entre quem percebe que a empresa responde adequadamente, 87,5% confiariam em reportar. Entre quem avalia a resposta como parcial, 42,0%. Onde a resposta é vista como inadequada, 12,9% — e 64,5% afirmam que não confiariam. A confiança não se constrói com o canal: constrói-se com o que acontece depois dele.

O consenso está na prevenção; a dúvida, na proteção

97,3% reconhecem efeito preventivo no monitoramento do comportamento das lideranças e 95,5% na aplicação consistente de medidas disciplinares — medidas que, com critério e proporcionalidade, encontram aceitação e não resistência. Ainda assim, 94,5% percebem medo de retaliação ao reportar, e liderança mais preparada foi a alternativa de prevenção mais escolhida (60,6%).

A principal reflexão está na distância entre instituir mecanismos e torná-los efetivos. A estrutura formal é indispensável, mas sua maturidade se revela na experiência de quem precisa compreendê-la, utilizá-la e confiar nela.

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