Do INSS ao Banco Master, o país repete um roteiro conhecido — e a fatura chega sempre ao mesmo lugar: o contribuinte
Vitor Pedrozo | Sócio Líder de Consultoria — CLA Brasil
Há um roteiro que o brasileiro conhece de cor. Um esquema bilionário vem à tona, provoca indignação, rende semanas de manchetes, alguns nomes são presos — e, passado o ciclo de atenção, tudo parece se acomodar até o próximo escândalo. A corrupção e a fraude no Brasil não são episódios isolados; são um ciclo vicioso que se reproduz há décadas, alimentado pela sensação de que os controles chegam sempre tarde e de que a punição raramente alcança quem estrutura o desvio.
O que mudou nas últimas décadas não foi a existência da fraude, mas a nossa relação com ela. A internet passou a difundir informação em velocidade inédita, a sociedade se interessou muito mais pelo tema e a tolerância a esquemas que sangram o dinheiro público despencou. É um avanço. Mas esse mesmo ambiente trouxe efeitos colaterais: a tendência de politizar e bipolarizar toda discussão sobre integridade, transformando o combate à corrupção em bandeira de um lado contra o outro. Quando a fraude vira torcida, perde-se o essencial — o problema é técnico, é de controle, e atinge a todos, independentemente de cor partidária.
A conta chega ao contribuinte
Dois casos recentes mostram como o prejuízo é concreto e coletivo. A fraude no INSS, investigada pela Operação Sem Desconto, envolveu um rombo estimado em R$ 6,3 bilhões em descontos não autorizados que atingiram cerca de 4,1 milhões de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024 — pessoas inscritas, sem saber, em associações que sacavam diretamente de seus benefícios. É a falha do controle público ferindo quem menos pode se defender.
O caso Banco Master expõe a outra ponta do mesmo problema. Com a liquidação decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, as investigações apontam o desvio de bilhões por meio de triangulações que empurravam recursos para ativos sem valor real — e até uma tentativa de venda a um banco público para diluir o rombo em um balanço maior. O resultado: o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) deve ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes, com impacto estimado em torno de R$ 41 bilhões, o maior resgate de sua história. Vale lembrar que o FGC é sustentado pelo próprio sistema — ou seja, o custo do socorro reverbera, direta ou indiretamente, para toda a sociedade.
O denominador comum não é o setor nem o valor, e sim a falha estrutural: órgãos de supervisão e administrações que não conseguiram criar, a tempo, controles capazes de frear o esquema enquanto ele crescia. A fraude quase nunca é invisível — ela deixa rastros. O que costuma faltar é o método e a velocidade para enxergá-la antes que o erário sangre.
O que os dados — e a metodologia — revelam
A percepção de que estamos estagnados tem respaldo em números. No Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025, publicado pela Transparência Internacional, o Brasil registrou 35 pontos e a 107ª posição entre 182 países — a segunda pior nota e, novamente, a pior colocação da série histórica, iniciada em 2012. O país não sai do lugar num momento em que a média global é de 43 pontos, com 122 das 182 avaliações abaixo de 50. O recado é claro: o ciclo não está se fechando.
Do lado técnico, a referência incontornável é a ACFE (Association of Certified Fraud Examiners). Seu estudo Occupational Fraud 2026: A Report to the Nations, baseado em 2.402 casos reais investigados por examinadores certificados em 143 países, oferece um recorte que dialoga diretamente com o Brasil. Na América Latina e no Caribe, a corrupção é o esquema de fraude mais comum da região, presente em 61% dos casos (suborno e conflito de interesses) — uma das maiores proporções do mundo. Some-se a isso o perfil dos autores: na região, 74% das fraudes são cometidas por homens e 26% por mulheres, distribuição que se reflete nos nomes que dominaram os escândalos recentes — e o Brasil sozinho respondeu por 18 dos 108 casos regionais analisados.
Mas o diagnóstico mais revelador está nos controles. Na América Latina, os mecanismos mais adotados são os formais — código de conduta (em 92% dos casos), auditoria externa (88%) e auditoria interna (87%). Já os controles que efetivamente flagram a fraude são justamente os menos usados: monitoramento proativo de dados aparece em apenas 46% dos casos, auditorias-surpresa em 42% e recompensas a denunciantes em meros 8%. Não por acaso, 54% das fraudes na região são descobertas por denúncia — muito acima da auditoria interna (15%). Investe-se no que é visível no papel, não no que detecta o desvio. E o custo desse descompasso é mensurável: globalmente, organizações que treinam equipe e liderança registram perda mediana de US$ 84 mil, contra US$ 150 mil das que não treinam ninguém.
Prevenir e apurar não são fases opostas de um combate — são o mesmo ciclo. Sem método, a indignação se repete; com método, o ciclo se quebra.
A nova fronteira: fraude na era da inteligência artificial
Se o ciclo já era difícil de romper, a inteligência artificial elevou a aposta dos dois lados do tabuleiro. Golpes de engenharia social, falsificações digitais e fraudes ao consumidor ganharam escala com ferramentas de IA baratas e acessíveis. O Anti-Fraud Technology Benchmarking Report de 2026, da ACFE em parceria com a SAS, ouviu 713 profissionais de combate à fraude e chegou a um dado alarmante: apenas 7% consideram suas organizações mais do que moderadamente preparadas para detectar ou prevenir fraudes potencializadas por IA, enquanto 77% relatam aumento de engenharia social com deepfakes. A fraude, hoje, evolui mais rápido do que a maioria das organizações consegue se defender.
O desafio dos agentes que combatem a fraude — dentro e fora das organizações — passou a ser duplo: dominar as mesmas tecnologias que os fraudadores já usam e, ao mesmo tempo, sustentar a velocidade, a escala e a governança para transformar dados em detecção. É um jogo em que ficar parado significa retroceder.
Como se quebra o ciclo
Não há atalho: o caminho é longo e exige persistência. Mas ele existe, e é feito de método, não de sorte. O primeiro passo é o mais silencioso — o aculturamento social e corporativo. Do lado da sociedade, enquanto a fraude for tratada como um problema abstrato, distante do dia a dia, seguiremos subestimando seu custo: cada esquema tem efeito direto sobre a economia e, por consequência, sobre o bolso do contribuinte — menos recursos para saúde e educação, juros mais altos, socorros bilionários bancados por todos. Do lado das organizações, é o mesmo princípio em outra escala: integridade precisa deixar de ser um manual esquecido na gaveta para virar cultura viva, com tom vindo da liderança, canais de denúncia que funcionem e controles que de fato flagrem o desvio — não apenas os que ficam bem no papel.
O segundo passo é dotar de capacidade real quem combate a fraude, dentro e fora das organizações. As mesmas técnicas que expõem os grandes esquemas públicos — análise de dados, monitoramento contínuo, auditorias-surpresa, rastreamento de ativos e investigação estruturada — são as que protegem uma empresa do desvio interno. Nos órgãos de controle e supervisão, isso significa modernizar métodos e integrar reguladores para detectar a fraude enquanto ela nasce, e não anos depois; nas corporações, significa investir nas ferramentas que efetivamente a detectam, e não só nas que cumprem tabela. Quebrar o ciclo vicioso da corrupção não é promessa de curto prazo, mas é uma escolha: enquanto tratarmos integridade como bandeira política ou custo a ser cortado, seguiremos pagando a conta; quando a tratarmos como método e prioridade coletiva, o Brasil — e as organizações que o movem — terá, enfim, a chance de deixar de ser a próxima manchete.
“Fontes: Transparência Internacional (IPC 2025); ACFE (Report to the Nations 2026 e Anti-Fraud Technology Benchmarking Report 2026); Polícia Federal/CGU; Banco Central/FGC”.